quarta-feira, setembro 17, 2008

Do sorriso


já alguma vez te disse
de quanto o teu sorriso me evoca a luz clara da alvorada?


não os poentes ocidentais
de amarelos pintados nas fachadas do casario
mas a serena luz
clara e fria das manhãs
que nos sulca a face
com a claridade azul de uma lágrima
e abre o peito à vida remoçada


entenderás agora
porque me afasto de ti
o justo espaço
do receio
de não caber dentro de mim
tanta luz
tanta ansiedade
este temor de romper
a solidão que me conforta?





Jorge Castro, in "Contra a Corrente"

domingo, setembro 14, 2008

É



Pensei conhecer as sombras pelos nomes,
especialmente, os das sombras das esquinas,
e todos os nomes,
todas as sombras,
todas as esquinas,
quis conhecer.
Pensei conhecer as nuvens pelos nomes,
mas, fundamentalmente, o nome de cada esquina,
e todos os nomes,
todas as nuvens,
todas as esquinas,
quis conhecer.
Penso já conhecer as nuvens, pela sombra,
mas não, seguramente, as esquinas de cada nome.



Manuel Filipe in “ Nas palmas da noite”

quinta-feira, agosto 28, 2008

Faz-me o favor


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.


É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.


Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu.
Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.



Mário Cesariny




[Deixo-vos até meados de Setembro com Cesariny e umas flores cor de melancolia. Beijos e abraços a todos ]

sábado, agosto 23, 2008

Explicação


O pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)


Cecília Meireles